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A voz das mulheres na Medicina Nuclear

Confira íntegra do discurso da Presidente da SBMN no WiN/INAC 2026

*Dra. Elba Etchebehere

Quando olhamos para a história da Medicina Nuclear, é impossível não lembrar de Marie Curie, que enfrentou preconceitos de todos os modos, mas conseguiu, em meio a tudo o que viveu, descobrir o rádio-226 e ganhou 2 prêmios Nobel. A descoberta da Marie Curie foi a semente da Medicina Nuclear. Quando ela teria imaginado que radioisótopos salvariam vidas. Nós, médicos nucleares, utilizamos a unidade Curie para medir a radioatividade que será administrada no paciente.

No entanto, destaco que quem é lembrado na ciência não é necessariamente determinado por quem fez a descoberta. Muitas vezes, é determinado por quem participa das instituições que estabelecem as narrativas históricas, a linguagem (terminologia) e as políticas.

Explicarei com o exemplo da Marie Curie, que, sem dúvida, é uma das cientistas mais influentes da história da Medicina Nuclear. A comunidade internacional estabeleceu em 1975 a terminologia “moderna” do Sistema Internacional de Unidades (SI). A unidade de atividade radioativa passou a ser o Becquerel, em homenagem a um homem. Ao mesmo tempo, outras unidades de radiação também receberam nomes de homens: o Gray (Louis Harold Gray) e o Sievert (Rolf Sievert).

Quantas mulheres, que contribuíram de maneira fundamental para o desenvolvimento da área nuclear, não participaram das instituições com autoridade para definir sua linguagem (terminologia), suas políticas e sua história?  

A Medicina Nuclear exige trabalho integrado de muitas áreas: medicina, radiofarmácia, radioquímica, biomedicina, física médica, enfermagem, engenharia, administração. As mulheres representam uma parcela expressiva da força de trabalho, mas continuam sub-representadas nos cargos de liderança e decisão. Um update para vocês, conforme dados recentes da OMS: as mulheres continuam representando 70% da força de trabalho mundial na área da saúde, porém, somente 25% de mulheres ocupam cargos de liderança na área. Somente 25%!

Há um volume crescente de estudos científicos que mostram que empresas de saúde que tem na sua composição gêneros distintos com lideranças também femininas superam em muito o desempenho de empresas com liderança exclusivamente masculina. A liderança feminina está diretamente relacionada ao maior lucro, ao maior retorno sobre patrimônio e a mais receitas oriundas de inovação. 

Mas como chegar à liderança se, no ambiente de trabalho, os estereótipos de gênero criam barreiras à progressão profissional das mulheres?

Compartilharei uma experiência pessoal. Quando minha filha Marina tinha apenas um mês de vida, eu, amamentando, fui pressionada a retornar ao trabalho no serviço privado (mesmo já trabalhando a distância pelo serviço privado desde os 10 dias de vida da Marina). Expliquei que ainda estava amamentando e a resposta foi que isso não era um problema dele, pois eu havia escolhido trabalhar em Medicina Nuclear e havia escolhido ter filhos. Ele ainda disse que sua esposa permanecia em casa justamente para cuidar dos filhos. A maternidade foi transformada numa penalidade profissional.

Naquele momento, confesso que pensei em desistir da minha carreira como médica nuclear. Eu havia dedicado 6 anos à Faculdade de Medicina da USP (depois de ter vindo de escola pública dos EUA aos 15 anos de idade e ter de aprender português), 3 anos à Medicina Nuclear na UNICAMP, já atuava há 7 anos como assistente na UNICAMP, estava fazendo doutorado e atuando no setor privado. Ou seja, após 16 anos de dedicação, cheguei a questionar se seria possível conciliar a maternidade com a carreira que estava tentando construir com tanto esforço.

Foi nesse momento que o apoio do meu esposo, Mauricio Etchebehere, foi fundamental. Ele é ortopedista, chefe e titular da Onco-Ortopedia da UNICAMP, e atual Superintendente do HC da UNICAMP. Mauricio foi um parceiro essencial para que eu pudesse atravessar aquela fase e seguir minha carreira. 

Nunca iria imaginar, naquele momento, com uma vida pequena sob meus cuidados, que eu conseguiria ser Professora Livre Docente da UNICAMP, Presidente Eleita da ALASBIMN, ter assento na Federação Mundial de Medicina Nuclear e ser nomeada para integrar grupos de trabalho na Organização Mundial de Saúde.

Essa experiência ensina duas coisas muito importantes.

O primeiro aprendizado é sobre o viés de gênero. O que estava sendo questionado não era a minha capacidade profissional, dedicação ou competência. O que estava por trás daquela atitude sem qualquer empatia era uma expectativa de que, por ser mulher e mãe, a responsabilidade pelo cuidado do filho deveria ser exclusivamente da mulher — e de que a maternidade deveria, necessariamente, impor limites à carreira.

O segundo aprendizado é sobre a importância dos homens como aliados de verdade na promoção da igualdade de gênero. Construir oportunidades justas para mulheres não é uma responsabilidade exclusivamente feminina. Esses homens maravilhosos como meu esposo, meu pai, meus outros colegas de trabalho, que compreendem nossas realidades, apoiam suas companheiras na carreira, compartilham responsabilidades familiares, têm um papel central para que as mulheres possam permanecer trabalhando, para progredir e ocupar posições de liderança.

Na Medicina Nuclear do Brasil, também temos exemplos de mulheres que impulsionaram a especialidade e merecem ser celebradas. A Dra. Constância Pagano, radiofarmacêutica, mãe da Radiofarmácia do Brasil, é uma inovadora, uma visionária. As médicas nucleares Anneliese Fischer Thom e Verônica Eston, co-fundadoras da SBMN, também. Ao longo da história da SBMN, apenas duas mulheres médicas nucleares — Marilia Marone e Cristiana Almeida — tiveram a oportunidade de exercer a Presidência, em contraste com 17 homens. Elas também fortaleceram a Medicina Nuclear brasileira e mostraram que liderança não tem gênero: exige competência técnico-científica, competência na articulação política, transparência, honestidade, integridade, visão de futuro, coragem e resiliência para defender a especialidade, e tudo isso elas fizeram sempre em prol dos pacientes e com muita empatia. 

Presidir a SBMN e dar continuidade ao legado delas não é simples. Estamos tentando: 

  • Elaboramos três projetos de lei para o desenvolvimento da Medicina Nuclear, atualmente em andamento. Agradeço, por essas ações, ao Deputado Julio Lopes, aos Senadores Hiran Gonçalves e Marcos Pontes, ao meu Vice-Presidente, Paulo Almeida, e a seus assessores. 
  • Realizamos inclusões no SUS do PET/CT no câncer de mama e câncer de esôfago (não havia inclusão de indicação de PET/CT oncológico no SUS há mais de 11 anos); auxiliamos o MS no aumento de 300% do valor de 41 procedimentos de Medicina Nuclear na tabela SUS (não havia reajuste há mais de 17 anos, mas ainda temos que ampliar esses reajustes para todo o SUS); incluímos procedimentos terapêuticos inovadores no rol de procedimentos. Por esse conjunto de ações, agradeço ao Ministério da Saúde, ao meu Diretor de Defesa e Ética, Dalton Anjos, e seus assessores.
  • Combatemos concorrência desleal, e outras ações na esfera jurídica, além de firmar parcerias com a AIEA, EANM, SASNM, WARMTH, WIN, CNEN, IPEN, ABDAN, AMAZUL, dentre muitas outras. Agradeço aos meus Tesoureiros, Allan Santos e Lara Carreira; à ex-Diretora da SBMN Adelina Sanches; e demais assessores jurídicos.
  • Atuamos sobre transporte de radioisótopos a nível internacional na AIEA e agradeço ao meu Primeiro Secretário, Gustavo Gomes, e assessores.
  • Modernizamos a Prova de Título Especialista; trouxemos pela primeira vez no Brasil dois congressos internacionais de Medicina Nuclear, principalmente o da Federação Mundial de Medicina Nuclear. Aqui agradeço à minha Diretora Científica, Camila Mosci, e assessores pela conquista.
  • Implementamos o Selo de Qualidade de Medicina Nuclear para centros de Medicina Nuclear em todo o Brasil e uma Certificação adicional para Centros Teranósticos no país. Agradeço à minha Segunda Secretária, Dra Flávia Paiva, à Dra Beatriz Birelli Nascimento e aos assessores.
  • Consolidamos pela primeira vez a SBMN como a segunda maior presença digital do mundo entre sociedades médicas de Medicina Nuclear; lançamos o Guia do Paciente; promovemos a Campanha “Medicina Nuclear Salva Vidas” com divulgação na grande imprensa. Muito obrigada à minha Assessora de Comunicação Flávia Kurkowski e demais assessores de comunicação.

Enfim, espero que essas ideias e a experiência que compartilhei possam contribuir para que mais mulheres avancem na esfera política. Novamente, em nome da SBMN, agradeço à WiN Brasil pelo convite e parabenizo a iniciativa, que contribui para uma Medicina Nuclear mais equitativa e cada vez mais humana, em benefício dos pacientes. 

Muito obrigada!

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